A morte de Kennedy e o corte de Cabelo “americano curto, máquina zero”

Não sei se aconteceu apenas um vez. Mas na minha memória, parece que aconteceu muitas vezes… e sempre igual. Meu pai me mandando ir ao barbeiro .

Naquela época não havia cabeleireiro. Era cabeleireira… e só para mulheres.
No meu caso, o barbeiro era o Carioca, que tinha a barbearia lá em cima, na Rua Bom Sucesso.

“Americano curto, máquina Zero’.
Era a “senha” que meu pai mandava dizer ao sentar na cadeira do Carioca.
Pronto o Carioca já saberia o que fazer com o cabelo daquele menino no alto dos seus 11 anos de idade.

Certa vez, muitos anos mais tarde, eu ouvi alguém dizendo que qualquer um saberia responder onde estava e o que estava fazendo quando foi noticiada a morte de John Kennedy, assassinado em Dallas no ano de 1963.

Naquele tempo, os aparelhos de TV ainda não eram muito comuns e muitos de nós, os garotos, só assistiamos aos seriados como RinTinTim ou Vigilante Rodoviário, quando algum amigo com pai mais abastado convidava a gente pra ver televisão na casa dele.

Não era televisão… chamávamos de televizinho.


As notícias, que pouco nos interessavam, passavam na TV, no Repórter Esso, apresentado em São Paulo por Kalil Filho, todos os dias às 20 horas.

A maioria dos meninos e meninas daquele tempo eram fotografados neste piano, lá nas Casas Pirani – uma Loja tipo Magazine que ficava na Avenida Rangel Pestana, no Brás, São Paulo /SP

De resto, ouvia-se muito o rádio.

E não era diferente lá no salão do Carioca… o rádio ficava ligado o dia inteiro.

E foi sentado na cadeira de barbeiro que eu ouvi a notícia do tiro que deram em Kennedy.
Muito provavelmente nada daquilo me causaria surpresa. Possivelmente eu mal sabia quem era Kennedy.
Mas certamente, foi a reação do Carioca e de algum cliente que acabou me alertando para a importância daquela notícia.

Pois então, sim. eu também lembrava exatamente onde eu estava naquele dia e o que eu estava fazendo.
Acabei de conferir agora: atentado aconteceu no dia 22 de novembro de 1963.

Quatro dias antes do fato, no dia 18 de novembro, eu acabara de completar meus 11 anos de idade.
Com certeza, meu saudoso pai, já sentia segurança em me mandar sozinho ao barbeiro….e “encomendar” para o Carioca um corte Americano Curto Máquina Zero no capricho.

Um corte de cabelo que me acompanhou até o surgimento da Jovem Guarda, quando me dei conta da música de Roberto, Erasmo e Wanderléa.
Aí não teve mais conversa. Meu pai teve que se conformar que, dali pra frente, teria um filho cabeludo.

Mas naquele dia da morte do Kennedy, eu ainda sairia com a cara de um soldadinho do exercito americano .

Na parte de traz da cabeça, como sempre, o Carioca dava o acabamento ao corte, raspando minha nuca com a mesma navalha que usava para todos os clientes.

Chegando em casa, meu pai me chamava para passar álcool naquela região do pescoço… Era pra desinfetar bem.

Ardia páca !

Aldo Della Monica

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