Um ítalo-caipira do Brás

 Um ítalo-caipira do Brás

Alfonso Della Monica *1853

A minha itália não parla italiano. Fala um misto de veneto e piracicabano; de Salerno e Brás e Belenzinho e Tatuapé.

Está na voz cantada do meu pai, brasileiro que não negava as origens do seu avô, do qual nunca me falou.

Parece que ainda ouço meu querido velho me chamar: Ardo (de um L palatal italiano que os meninos do Brás adaptaram – pelo menos os meninos netos di mio bisnonno Alfonso, falavam o L assim…

Minha Itália é de Rita  Pavone, Sérgio Endrigo, Edoardo Vianello, Gianni Morandi… e mais tarde do delicioso Fellini, Pasolini…

Minha Itália é da professoressa que me ensinou no Instituto da Frei Caneca. E de Darly Nicolanna Scornaienchi, a professoressa que falava de um povo italiano muito simples, durante as aulas na USP.

A minha Itália traz na memória os corredores da Igreja Cristo Rei, no Tatuapé, onde meu nonno Luigi era vicentino e minha mãe e tias, todas elas, Filhas de Maria.
Minha Itália não é Calabresa, Napolitana, Romana ou Veneta; é meia mussarela meia margherita. Minha Itália é do Bixiga. É da Moóca.

Luigi Marcato *1884

Minha Itália não tem bandeira, apenas as cores das toalhas de domingo, onde minha vó Maria e suas filhas serviam almoços barulhentos após, claro, as orações de agradecimentos de meu nonno Luigi.
A minha Itália é a mais linda deste mundo. Como também deve ser a sua.


aldo della monica
Aldo Della Monica – Jornalista e Bibliotecário pela Escola de Comunicações e Artes da USP – DNA biológico e cultural dos Della Monica, Marcato, Bissi, Spisso, Manes, Novello, Aliberti, Calzavara, Simionato, Scavazza, Missieli, Ortiz e Camargo – Origens mais recentes nas provincias de Padova e Salerno

CANÇÃO DE SAUDADE E DÚVIDA DO ITALIANO QUE DEIXA SUA PEQUENA VILA

Paese mio che stai sulla collina / disteso come un vecchio addormentato
la noia l’abbandono il niente son la tua malattia,
paese mio ti lascio e vado via.
Che sarà, che sarà, che sarà
che sarà della mia vita, chi lo sa
so far tutto, o forse niente, da domani si vedrà
e sarà, sarà quel che sarà.
Amore mio ti bacio sulla bocca
che fu la fonte del mio primo amore,
ti do l’appuntamento,
come e quando non lo so,
ma so soltanto che ritornerò.
Che sarà, che sarà, che sarà
che sarà della mia vita, chi lo sa
con me porto la chitarra
e se la notte piangerò
una nenia di paese suonerò.
Gli amici miei son quasi tutti via,
e gli altri partiranno dopo me,
peccato perché stavo bene
in loro compagnia
ma tutto passa tutto se ne va.
Che sarà, che sarà, che sarà
che sarà della mia vita, chi lo sa
so far tutto, o forse niente, da domani si vedrà
e sarà, sarà quel che sarà.
Che sarà, che sarà, che sarà
che sarà della mia vita, chi lo sa
so far tutto, o forse niente,
da domani si vedrà
e sarà, sarà quel che sarà.

Cidadezinha minha que está na colina
estendida como um velho adormecido,
tédio, abandono, o nada são as tuas doenças,
cidade minha te deixo eu vou embora.
Que será, que será, que será.
Que será da minha vida quem sabe.
Sei fazer tudo ou talvez nada,
amanhã veremos,
e será, será o que será.
Amor meu te beijo na boca
que foi a fonte do meu primeiro amor,
marco nosso encontro como e quando não sei,
sei somente que voltarei.
Que será, que será, que será.
Que será da minha vida quem sabe.
Comigo levo a guitarra e se de noite chorarei,
uma cantiga da minha cidade tocarei.
Os meus amigos foram quase todos embora
e os outros partirão depois de mim.
Pena pois estava bem em sua companhia,
mas tudo passa, tudo se vai.
Que será, que será, que será.
Que será da minha vida quem sabe.
Sei fazer tudo ou talvez nada,
amanhã veremos,e será, será o que será.