Um show em Barra do Turvo – Parte 1

  • – Tão vendo aquela cruz ali ? Meu amigo Bernardo tá lá. Ele capotou o carro bem nessa curva e caiu no rio.
    Nós já tínhamos olhado as condições daquele fusquinha, que tinha apanhado a gente, lá no posto, junto à estrada que liga São Paulo a Curitiba. Conforme instruções do Secretário da Prefeitura, deveríamos descer do Cometa A uns duzentos metros depois do trevo, onde havia a placa Empreendimentos Nobile. O trevo a gente achou, mas cadê a placa?
  • Deve ser por aqui, sr. Motorista. Vamos descer aqui! Tinha uma estradinha, que se embrenhava na mata, sinalizada com dois tocos – deviam ser os restos de uma porteira, na entrada de uma fazenda.
    Violões na mão, mochila nas costas e botas nos pés.
    Você já andou de bota? Pois é, bota não foi feita pra se andar e não ser em cima de um cavalo. Sem cavalo e de botas, eu e meu parceiro nos pusemos a caminha em direção ao que parecia ser um posto de gasolina.
    Engraçado, quando você está de carro, na estrada, tudo parece perto. Jurei que até o posto não seria mais que um tirico de espingarda..
    Pra completar, estávamos numa ligeira ladeira. Acima. Era ligeira a uns 300 metros atrás.
    O sol das 12:30 nos fazia esquecer de que – venham pra almoçar com a gente- o Prefeito havia nos convidado para o que seria uma verdadeira comilança em homenagem ao aniversário da cidade.
    Não soubesse que meu parceiro era desses sujeitos descontraídos no vestir, juraria ser uma gravata vermelha aquela enorme língua que o coitado mal conseguia conter na boca.
    Ufa, que só faltava atravessar a pista para alcançarmos nossos oásis. O frentista do posto reconheceu a gente:
  • Eu já vi vocês no Viola Minha Viola, o programa da dona Inesita. Puxa, eu sou muito fã de vocês. Como é mesmo o nome da vossa dupla?
    -Bom, já que você conhece mesmo a gente, dê uma ajuda. Nós queremos chegar na entrada de Barra do Turvo, onde tem uma placa de imobiliária.
    -Ih, seu moço, é fácil mas a imobiliária não tem mais não. O corretor loteou uma fazenda aqui perto, vendeu os lotes e sumiu do mapa. O dono da fazenda tá atrás dele até hoje.
    -Logo alí atrás tem um trevo, uns duzentos metros antes de chegar lá, “ocês” vão vê dois toco pintado de verde. É os arrestante da “praca” que o fazendeiro mandou arrancar. Ali é a estrada que vai dar no Turvo. Pra baixo todo santo ajuda, mas não depois de você ter subido a mesma ladeira por três kilometros e carregando violão, viola, mochilas… E de botas. E sem cavalo…
  • Vamos tentar ligar para a Prefeitura, pra ver se eles mandam alguém nos buscar aqui no posto. Meu parceiro, sempre moderno, já sabia do novo invento de Grambell. Depois de algumas poucas vinte tentativas, com mensagens de “esse número de telefone não existe” ou de um sujeito que atendia aos berros do outro lado, mas não ouvia o que dizíamos, conseguimos nos identificar

Julho.2000
Aldo Della Monica

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